quarta-feira, 28 de maio de 2008

A VOZ DO CORAÇÃO

Capítulo 1 – O Amigo

Ele entrou pela porta da frente da casa. Na sala não se ouvia nada além dos soluços da mãe que chorava solitária abraçada a um porta-retratos. Um choro angustiante, de quem sabe a verdade, mas não quer acreditar. Coração de mãe não se engana. Ele subiu as escadas sem fazer barulho e, obviamente, não chamou a atenção da mãe que continuava a chorar seu merecido lamento.
No outro andar ele viu a porta entreaberta do segundo quarto que era o quarto do filho mais novo. Ele entrou abrindo a porta devagar. O garoto ainda dormia àquela hora. Era cedo e os primeiros raios solares começavam a surgir no horizonte. Alguns pássaros começavam a cantar lá fora. Poderia ser um belo momento, se não fossem as circunstâncias.
Ele sentou-se em uma confortável poltrona ao lado da cama onde permaneceu em silêncio apenas ouvindo a respiração do garoto dormindo, não queria acordá-lo. Quando tinha aquela idade adorava dormir até tarde. Sonhar era bom, e talvez não houvesse nada melhor para aquele garoto naquele momento do que sonhar. E ainda assim era bonito de ser ver aquele pequeno garoto dormindo. Lembrava a ele mesmo quando dormia exatamente naquele mesmo quarto anos atrás. De repente sua cabeça se encheu de flashs daquele tempo. Não havia um controle. Estava lembrando-se de anos atrás, mas era incapaz de lembrar o que lhe acontecera há uma semana. Não controlava mais sua mente, ela simplesmente escolhia o que ele deveria lembrar-se. E ficou submerso naquelas lembranças, todas agradáveis de um tempo que não mais voltaria, e que nem de longe parecia com o do pequeno garoto que ali dormia.
O tempo passou, mas ele não sabia o quanto. Não tinha mais a capacidade de notar o tempo. Perdera a noção do tempo, mas não porque estava distraído com as lembranças, mas porque simplesmente não tinha mais noção de tempo. Poderiam ter se passado horas, ou minutos, e ele não saberia. Apenas fora despertado de seu “transe” com o despertar do garoto adormecido. O menino abriu os olhos com dificuldade quando a luz do sol que entrara pela janela lhe tocou as pálpebras. Ele se espreguiçou na cama e ao se deparar com sua visita, se assustou. Hesitou por um momento, mas acalmou-se ao perceber que não havia perigo. Ele apenas sorriu para o garoto como se lhe desejar um bom dia não fosse muito apropriado. O garoto se ajeitou na cama. Sentou encostando as costas na cabeceira permanecendo com a parte inferior coberta pelo edredom. Coçou os olhos e disse meio distante olhando pela janela para o sol nascendo no horizonte:
— Ah, é você?
— Sim. Eu prometi que voltaria hoje. — ele respondeu.
— Quanto tempo mais você vai continuar vindo? — perguntou o garoto meio sem jeito, ainda sem lhe olhar nos olhos.
— O que foi, não quer mais que eu venha? — surpreendeu-se.
O garoto ficou olhando para o sol. O silêncio reinou, quebrado apenas pelo canto dos pássaros que com o sol iluminando boa parte das árvores lá fora, começou a se tornar mais numeroso. Ele pensou em dizer algo, mas sabia que o garoto ainda tinha algo para acrescentar, estava visivelmente procurando as palavras certas para dizer-lhe. E finalmente disse:
— Minha mãe não quer mais que eu fale com você, diz que não é legal. Que eu não tenho idade para isso.
— O que tem a ver com idade? Sua mãe está muito triste, ela não sabe o que diz. Não está pensando com clareza.
— Eu sei. Mas o que eu posso fazer?
— Você precisa me ajudar. Precisamos concluir nossa missão.
— Mas ela precisa de mim, e mais do que você.
As palavras do garoto, por algum motivo, lhe magoaram. Ele não sabia exatamente o que estava sentindo, nem sabia o que o levava a ir visitar o garoto, sabia apenas que deveria estar ali para ajudar. E de repente surgiu nele um movimento involuntário que o fez erguer-se da poltrona. Sabia o que deveria dizer, mas não sabia porque. Era uma estranha sensação. Estava sendo controlado por uma força sobrenatural que não lhe permitia mais ter controle sobre si mesmo. E de algum lugar vieram aquelas palavras.
— Eu não vou precisar mais vir aqui. Vamos cumprir nossa missão hoje.
O garoto finalmente lhe encarou. Trazia uma expressão de incredulidade. Era como se fosse o culpado por ter desencadeado o fim da missão. Pelo menos seria cumprida, conforme ele lhe prometera.
Ele foi até o armário do garoto retirou um casaco e jogou para ele. Pediu que se vestisse e o acompanha-se. Desceu pelas escadas seguido pelo garoto. Definitivamente toda a missão seria cumprida até o fim daquela noite. No andar inferior quando já alcançaram à porta uma voz rouca os fez parar. Era a voz ainda chorosa da mãe.
— Para onde está indo Nicolas?
O garoto hesitou. Os dois se encararam, ele fez um sinal de com a cabeça encorajando o garoto a responder algo.
— Estamos indo terminar nossa missão, mamãe.
— A gente não tinha conversado sobre isso Nicolas?
— Ele não vai mais voltar mamãe, só precisamos encerrar a missão, e ele não vai mais precisar aparecer aqui.
— Nicolas, se você quer brincar lá fora, tudo bem, só tome cuidado. E não me fale mais em missões.
Nicolas abriu a boca, mas foi advertido pelo companheiro para que não mais falasse. Depois daquela noite, sua mãe nunca mais ouviria falar dele.
Os dois saíram pelos fundos da casa e foram para o celeiro. Era lá que Nicolas guardava alguns brinquedos. E era lá que estava sua bicicleta. Nicolas montou na bicicleta e olhou para ele.
— A gente se encontra lá?
— Sim, mas tome cuidado. Não quer levar o Titã com você? — sugeriu para o garoto.
— O Titã está cansado. Talvez nem tenha acordado ainda. Tem passado a noite toda fazendo buscas e guarda. Melhor deixá-lo descansar. Agora é com a gente.
— Tudo bem. A gente se encontra lá.
Nicolas começou a pedalar e logo estava pegando velocidade. Desceu alguns morros o que o deixava ainda mais rápido. Chegou até a estrada, que naquela região era pouco movimentada, e passou a seguí-la. Ele recebia com prazer o vento forte no rosto. O sol já aparecia no alto, seus raios de luz atravessando a copa das árvores e iluminando uma boa extensão da estrada. Sentia a liberdade, a liberdade que sua mãe não queria lhe dar, não por mal, mas por medo. Era bom poder sair. Não agüentava mais passar tanto tempo em casa esperando por notícias, as notícias que nunca vinham. Precisava sair, precisava buscar a resposta sozinho. Não completamente só. Tinha uma ajuda. Paulo era sua maior ajuda. Paulo estava lá com ele. Paulo era uma peça importante para descobrir o que acontecera de verdade. A verdade que sua mãe se negava a crer.

Continua...

Um comentário:

Anônimo disse...

Só irei me pronunciar quando ler tudo, ou pelo menos uma boa parte, antes não. Beijos